sábado, 30 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Almodovar




A lei do desejo, Almodovar
Pablo Quintero (Eusebio Poncela) é um cineasta na moda. Quando o seu amante o deixa, consola-se com António (Antonio Banderas) um jovem que está louco por ele, mas é muito ciumento. Ao mesmo tempo, Pablo começa a escrever o seu novo filme, inspirado na vida da irmã, Tina (Cármen Maura), que em tempos foi um homem. E António está cada vez mais ciumento e cada vez mais louco, mas Pablo não consegue esquecer o seu antigo amante... Pedro Almodóvar convida-nos a uma reflexão sobre os meandros do desejo, através dos amores complicados de um realizador de cinema e da sua irmã, no que é um dos seus filmes mais negros e intensos.

Um grito a dois: Larsson

Grito 16

Vício

Quando me sinto viciada e sei que vou sucumbir cada vez que me afeiçoo mais e mais ao que me vicia, escraviza, desato a correr, a correr, a correr, a correr para lado algum até não ter forças para respirar. A dor do ar nos pulmões distrai-me, afasta-me, leva-me, arrasta-me um pouco para longe. A dor do ar. Por pouco tempo, porém. A dor. E volta a dor do vício, a falta, a falta, a falta de qualquer coisa que não existe em lado algum mas que se materializou para sempre numa substância específica e eu sei onde ela existe, sei que existe e sinto-me tão viciada, tão fraca sem ela, tão forte com ela, tão irreal neste intervalo que vai do prazer ao desprazer. Quero viver nestes extremos: o cúmulo do prazer e o máximo sofrimento. É aqui que vivo, mudando a cada instante, mudando tudo e todos e correrei sempre numa direcção e noutra à procura, à procura do que não há, mas há, onde não está, mas está.
Quando me sinto tão viciada que não sou outra coisa que não o próprio vício, sei que sou o que melhor consigo ser e é nisso que gastarei as minhas últimas forças seja onde for, quando for. Tão viciada serei enquanto o meu corpo m’o permitir, me disser que sim, que é aquilo que quer, que quer cada vez mais, até ser sempre isso o que preciso, a todo o momento, em qualquer instante, até acabar. Por isso correrei, correrei para matar a dor, para encontrar a dor, para dar cabo da dor, correrei em todas as direcções, em qualquer sentido, tocarei todos e tudo até chegar onde a dor se transforma em prazer e eu descanse nesse prazer, descanse tanto que me esqueça de correr, que me esqueça de tudo e entre por esse prazer dentro mudando, mudando, vivendo disso.
Sim, sou uma viciada. Sim, viciar-me-ei mais e mais até mais não ser possível e a dor me empurrar para a corrida que é a procura do vício; que sem ele não sou nada. Sou vício, vício, vício e procura e mudança e escapo-me de dor em dor, de prazer em prazer, da vida que não sei ser nem quero. E vou de joelhos, de rastos, às cegas, às apalpadelas, mas vou correndo, procurando o que sei que quero, que existe lá, naquele lugar onde eu consigo chegar nem que seja pedindo, implorando, cedendo favores, mas indo sempre naquela direcção onde voltarei ao cúmulo da existência, voltarei ao que vale a pena viver, voltarei correndo uma vez e outra até que não haja ar para me doer nos pulmões, nem pernas para correr, joelhos para rastejar, força para alimentar este vício que me ampara e desampara e me dá a conhecer os extremos do que consigo ser. Só assim, quando me sinto viciada, existo. E correrei por dentro se necessário for. Intoxicarei a minha alma até não poder mais e o meu corpo não se mexer. Morrerei sentindo-me viciada.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Wenders




Wings of desire, Wim Wenders
The sky over Wenders' war-scarred Berlin is full of gentle, trenchcoated angels who listen to the tortured thoughts of mortals and try to comfort them. One, Damiel (Bruno Ganz), wishes to become mortal after falling in love with a beautiful trapeze artist, Marion (Solveig Dommartin). Peter Falk, as himself, assists in the transformation by explaining the simple joys of a human experience, such as the sublime combination of coffee and cigarettes.

Told from the angel's point of view, the film is shot in black and white, blossoming into color only when the angels perceive the realities of humankind. Ultimately, Damiel determines that he must experience humanity in full, and breaks through in to the real world to pursue a life with Marion.

Um grito a dois: Botero

Grito 15

Não quero escrever como se fosse impotente; como se o mundo fosse acabar; como se as pessoas morressem; como se as flores murchassem; como se as despedidas doessem; como se o amor acabasse; como se todos sofressem; como se as crianças se magoassem; como se fosse possível ser infeliz; como se os campos ardessem; como se a fome matasse; e a sede secasse; como se tudo mudasse quando não podia.
Nem quero escrever como se fosse má; como se odiasse profundamente; como se desejasse o pior; como se batesse, agredisse, empurrasse; como se matasse; como se gozasse com a dor; como se gostasse do sofrimento dos outros; como se fracturasse; como se encobrisse o mal; como se mentisse; como se pecasse; como se soubesse; como se não soubesse; como se não estivesse onde todos estão.
Nem quero escrever como se não fosse eu; disfarçada, pintada, escondida; como se fosse outra; como se não fosse; como se sendo não quisesse ser; como se fingisse, mentisse, ludibriasse; como se encenasse, representasse; como se imitasse, copiasse; como se roubasse, engolisse os outros; como se derrapasse; como se negasse, ignorasse, desdenhasse; como se não falasse nem escrevesse nem pensasse.
Não quero escrever como se fosse doente, defeituosa, amputada, desfeita, refeita, voltada a fazer, incapaz, infértil, ignorante, egocêntrica, infeliz, incrédula, pessimista, qual velha do Restelo, derrotada, vencida, esquecida, ignorada, evitada, enjoada, enojada, repelente, feia, envelhecida, suja, descuidada, desinteressada, desinteressante, gorda.
Não quero escrever como se acreditasse que amanhã será um dia melhor, nem como se confiasse nos outros, nem como se houvesse uma solução para tudo, nem como se a ecologia fosse a solução dos pobres, nem como se a economia pudesse ser a salvação dos ricos, nem como se a ciência nos tornasse imortais, nem como se a literatura nos curasse o vazio, nem como se a saúde fosse um bem.
Nem quero escrever sendo um cadáver ambulante, com palavras velhas para dizer, com pensamentos antigos, fora de uso, carregando não sei que vida, que dor, morrendo com as palavras presas nas mãos, recusando-me; nem como uma morta viva afogada em memórias, cansada, cansada, pesada.
Não quero escrever…

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Um grito a dois: Turner

Grito 14

Mulher em Mudança

Sou uma mulher em mudança. Poderão dizer que me limito a adoecer e que adoecer é uma forma de envelhecer e de viver. Talvez. Mas apenas me sinto a mudar. Ouço vozes que me dizem coisas maravilhosas e não me fazem sofrer: não são reais, é certo, mas não doem como aquelas que o são. São várias vozes diferentes e fazem-me companhia onde antes estava só como um cão. Não me digam para tomar medicamentos que m’as levem, não os tomarei. Vejo coisas impossíveis de serem vistas, eu sei. Mas são de uma beleza paralisante. Pura fruição estética. Quero gravar estas imagens dentro de mim, guardá-las no fundo da memória antes que alguém se lembre de m’as roubar. Não me digam para tomar medicamentos que m’as levem, não os tomarei. Tenho novos sentimentos, novos para mim: ódio, raiva, revolta. Protegem-me de quem me quer fazer mal e quase todos me querem fazer mal; estou sempre atenta e pronta a atacar quem ousar aproximar-se demasiado: não estou aqui para ninguém. Sou uma mulher em mudança. Vejo coisas diferentes, ouço coisas diferentes e sinto coisas diferentes. Não me digam para tomar medicamentos que m’as levem, não os tomarei. O meu corpo também mudou e eu sinto os meus órgãos a mudarem de lugar dentro de mim e as suas funções a alteraram-se de uma forma mágica: acho que penso com os pulmões e respiro com o coração e sinto dor ou prazer no estômago. Ainda não sei onde está o meu sexo. Tantas coisas diferentes dentro desta mulher em mudança. Não me digam para tomar medicamentos que m’as levem, não os tomarei. Não quer dizer que a minha vida tenha ficado de pernas para o ar. Não quer dizer que não compreenda quem era antes e o que sou agora. Não quer dizer que não fosse feliz. Não quer dizer nada. Apenas que sou uma mulher em mudança: de um estado de suposta lucidez para um estado de suposta loucura, onde esta não me faz sofrer, nem desejar morrer, nem querer ser normal, nem coisa alguma. O meu olhar mudou, vejo tudo de outra maneira, vejo para dentro; ouço diferentemente e não é o eco do pensamento, não, são as vozes que me tocam no corpo todo e não só nos ouvidos, ouço com a pele; o meu corpo desafia-me a reconhecê-lo de outra forma: a dor e o prazer de outra forma. Só os outros não entram nesta aventura. Tantas coisas novas nesta mulher em mudança. Não me digam para tomar medicamentos que m’as levem, não os tomarei.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Corneau



Après Nocturne indien (1989), d’après Antonio Tabucchi, où s’exprimait de manière déjà secrète un parti pris pictural et un goût pour la quête initiatique, Alain Corneau se tourne vers la musique française du XVIIe siècle. Il s’adresse au romancier Pascal Quignard pour le scénario et au musicien Jordi Savall pour la musique du film.
Le premier avait déjà écrit en 1987 un petit roman, La Leçon de musique, dont le premier chapitre narrait « un épisode tiré de la vie de Marin Marais ». Il se lance alors dans l’écriture d’un roman plus important, Tous les matins du monde, qui sera le support littéraire du film.
Quant à Jordi Savall, il est le plus fameux violiste en exercice. En collaboration étroite avec Quignard et Corneau, il choisit dans le répertoire baroque les pièces essentielles du film et exhume pour la circonstance les rares pièces écrites par Sainte Colombe, compositeur très peu connu, qu’il adapte de manière à l’opposer esthétiquement et philosophiquement à la musique de Marin Marais.

Um grito a dois: Paula Rego

Grito 13

Medo

Não me deixes sozinha, mãe. Por favor, não me deixes sozinha. Tenho tanto medo do escuro, da noite, dos sonhos maus. Tanto medo de acordar e tu não estares. Sei e compreendo que tens de trabalhar e que é por isso que não estás, mas não me deixes só. Nesses momentos eu carrego toda a solidão do mundo no meu peito e nada me consola da tua ausência. Porque à noite, mãe, só tu me dás segurança, me afastas os fantasmas, enches a casa que cresce quando tu não estás. Às vezes tenho a felicidade de dormir toda a noite e não me apercebo se estiveste ou não em casa. Mas, a grande maioria das noites, acordo em sobressalto e vou devagarinho devagarinho ao teu quarto, enquanto não chego lá tenho a esperança de que tu lá estejas, e depois volto para o meu, ou com o coração pequenino, cheia de medo e fico acordada à tua espera, ou com o coração grande, confiante porque tu estás ali a dormir, ao meu lado. Não chegues tarde ao colégio, quando me vais buscar. Quase sempre sou a última a voltar para casa, porque tu não chegas nunca e as últimas horas da tarde doem-me tanto, vendo os outros meninos e meninas partirem alegremente e eu ali, sozinha, sem mais ninguém com quem brincar, sem mais o que estudar, sem nada para fazer, excepto estar ali à tua espera. Quando chegas, ilumino-me toda e quase esqueço o sofrimento de minutos antes. Não peças a terceiros para me irem buscar ou levar seja lá onde for – com eles não é ir e voltar, mas partir e nunca chegar. É uma espera que não acaba. Espero na escola e depois volto para casa para continuar à espera. Não me faças isso mãe. Eu sei que não o fazes propositadamente, tens uma vida difícil, mas eu também tenho. Vivo à tua espera desde que nasci. Devo ter chorado muito à espera que chegasses para me amamentar. Não me lembro, mas tenho a memória da dor. E chorei muito em casa sem ti, no colégio, na escola, em casa de outras pessoas enquanto esperava por ti. Esperei tudo o que é possível a uma criança esperar. Não quero brinquedos, nem lembranças, quero-te a ti, mãe. O teu colo branco, a tua voz alta que cala o silêncio, a tua presença forte, só a tua presença. Estás sempre atarefada, como que a fugir de alguma coisa, saltas de tarefa em tarefa com uma velocidade que não consigo acompanhar. E quando dormes, dormes profundamente, cansada, indisponível, só. Muitas vezes me deitei na tua cama vazia, à tua espera, claro. Que chegasses. E chegavas quase sempre. Mas nunca para mim.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Kaurismäki



Aki Kaurismäki - Drifting Clouds
Tram driver Lauri looses his job. Shortly later, the restaurant where his wife Ilona works as a headwaitress is closed. Too proud, to receive money from the social welfare system, they hardly try to find new jobs. But they are completely unlucky and clumsy, one disaster is followed by the next. Finally, their courage, confidence, and their unbreakable love triumph over the fate.

Um grito a dois: Bacon

Grito 12

Desculpa

Desculpa. Desculpa ter-te dito que gostava de ti. Ter-te transmitido esse conhecimento sem saber se poderias recebê-lo ou não. Não pensei. Senti e disse o que senti. Não pensei nas implicações que isso poderia ter para ti, sobretudo nas mais desagradáveis. Não te peço desculpa por gostar de ti, claro. Mas não podes imaginar o quanto me arrependi da forma como o disse. Se pudesse voltava atrás. Mas não posso. Está dito. Eu sei, não te conheço, vejo-te num dia, depois noutro passado algum tempo, trocámos meia dúzia de palavras e eis que levas com esta brutalidade em cima: gosto de ti. Uma coisa tão simples pode assumir proporções complexas, não é? Não, nunca me tinha acontecido: conhecer e gostar quase em simultâneo. Mas vai de encontro ao que, cada vez mais, suponho serem as emoções: instantâneas. Quando gostamos de alguém, gostamos logo. Não é por se conhecer muito bem ou há muito tempo uma pessoa que se gosta mais ou menos. Gosta-se e pronto. A questão é: até que ponto temos o direito de obrigar o outro a ouvir, ler, aperceber-se disto? E por isso te peço desculpa, desculpa, desculpa, sem reservas, num arrependimento sincero, numa culpa aberta e com uma pena imensa. Estava a apreciar tanto a nossa troca de imagens e fui interromper tudo isso, que, afinal, era o que valia a pena, era o que ficaria, era o caminho de uma possível relação de amizade. Pronto, agora que já fiz de ti o meu muro das lamentações, deixa-me que te diga o que me preocupa: quando disse…”voa”…, não era para desapareceres, era apenas para te desligares do que te tinha dito; não era para deixares de trocar emails comigo, era apenas para não te sentires constrangido com esse conhecimento. Acho que esperava que, na ausência de correspondência afectiva, brincasses um pouco comigo, aligeirasses a situação, vá lá, poderias até gozar-me um pouco. Acredita que aguento tudo isso e tenho uma enorme resistência à frustração. O que me custa é que possas, eventualmente, ter ficado magoado comigo, mal impressionado, a pensar mal de mim. Não é que não tenhas o direito de pensar mal de mim, claro que tens, mas custa-me. Já ouviste falar em segundas oportunidades? Começar de novo? Olá, como te chamas? Queres ser meu amigo? Queres ver os meus brinquedos? Mostras-me os teus? Prometo não os estragar. Prometo não te magoar. Tudo como antes? Houve antes?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Ferrara


The Addiction is an unconventional 1995 vampire film by Abel Ferrara, starring Lili Taylor, Edie Falco, Paul Calderon and Christopher Walken. It was written by Ferrara's regular screenwriter, Nicholas St John, filmed in black and white and released simultaneously with Ferrara's period gangster film, The Funeral.
The film is widely considered an allegory about drug addiction.

Um grito a dois: Caravaggio

Grito 11

Tratei dele durante o tempo que a doença durou: 10 anos. Tive os mesmos desgostos e esperanças que ele durante todo o processo. As mesmas dores, as mesmas indisposições. As mesmas alegrias e expectativas. Quis que ele morresse quando não aguentava mais o seu sofrimento. Quis que ele vivesse para sempre quando me apercebida do quanto me fazia falta. Amei a sua dignidade na doença, a sua coragem, a sua pessoa. Revelou-se na sua singularidade na doença. Morreu quando eu não estava presente, como se não quisesse que eu visse aquele último sopro e isso não compreendi: eu, que até os ossos, nervos e artérias lhe vi através das feridas, não pude vê-lo respirar pela última vez. Isso doeu-me. E agora percebo que a última conversa que tivemos, que, na altura, me pareceu disparatada e despropositada, era, na verdade, uma despedida. Ele sabia que não iria para lugar nenhum. E, no entanto, precisei de Deus para me dizer que ele iria para algum lugar. No dia a seguir à sua morte, dei toda a sua roupa e quase todos os objectos pessoais. O filho também não quis quase nada que pertencia ao pai. Ficou com a mesma doença. Aguentarei tudo outra vez?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um grito a dois: Lucian Freud

Grito 10

Folhas brancas

As folhas em branco sempre me perturbaram muito pelas possibilidades que suscitam: um desenho, um poema, uma obra-prima, uma ideia, um rascunho, um lixo, um princípio. E isto não teria nenhuma importância se este pensamento não me assaltasse sempre, mas sempre, que me deparo com uma folha em branco. Chego mesmo a pensar que uma folha em branco é o lugar mais criativo do mundo.
Emociona-me recordar a m.m., com quatro anitos, encavalitada numa cadeira da mesa da sala de jantar, debruçada sobre uma folha branca a desenhar um “avô” com um “dói-dói” no lugar do coração, no dia da operação cardíaca a que o avô teve que submeter-se. Emociona-me recordar o vídeo de f., também criança de 3 ou 4 anos, tão inseguro e trémulo, a pintar, isto é, a acertar as pinceladas às cores numa folha branca.
Queria ter agarrado estes momentos, tê-los fixados para sempre… Ficaram as folhas, já não em branco, amarelecidas pelo tempo, diferentes da memória que delas tenho e ficaram-me estas imagens na memória. O que não muda nunca é o que sinto de cada vez que evoco estes momentos proporcionados por uma página em branco.
E o mais engraçado é que a folha nem sequer precisa de ser branca, pode ser verde, azul, amarela, mas se não tiver nada escrito ou desenhado ou impresso, é considerada uma folha em branco, isto é, uma folha vazia de informação e disponível para receber qualquer uma.
Associo sim a ideia da folha em branco à infância e a explicação é fácil: a infância é a nossa suposta folha em branco, é quando tudo vai começar, é quando tudo se pode renovar. Claro que o que já éramos antes de sermos crianças pode ser muito interessante, mas não para aqui, não para agora. Adoro pensar em salas cheias de crianças efervescentes, sentadas nas suas pequenas cadeiras, rodeadas de lápis de cor e de canetas de feltro e com a sua folha em branco à frente. Quando deixam de ser folhas em branco, quantas histórias há para contar acerca delas, mas quem está lá para o fazer?
Um dia deparei-me com o significado profundo desta coisa que é ter uma folha em branco à nossa frente e a obrigatoriedade de lhe dar algum conteúdo. Então, comecei a escrever e nunca mais parei. Escrevi as coisas mais horríveis, mais ternas, mais verdadeiras e mais improváveis, mas nunca mais deixei de escrever. Às vezes estranho não ter ficado presa ao desenho que sempre admirei e que muito me atraía. Mas o talento não acompanha quem quer e tive que me resignar às palavras. Na verdade, primeiro às letras, depois às palavras, mais tarde histórias e cheguei até a andar pelos pensamentos.
Não sou uma escritora, não se é uma escritora porque se escreve umas coisas, até mesmo uns livros. É-se uma escritora quando se muda o mundo através de um olhar diferente sobre as coisas e se é capaz de por isso numa folha de papel (ou em várias).
Mas que há beleza numa folha em branco, isso há. Gostar de folhas em branco deve ser um princípio para se gostar de vir a trabalhar com elas, mais cedo ou mais tarde: ser um escritor, um desenhador, um arquivista, um empregado de balcão numa papelaria, um arquitecto, um pintor…devem começar por aqui: o deleite da folha em branco e as suas inúmeras possibilidades.
Quando a folha deixa de estar em branco, algo de nós fica nela, fica com ela e nós podemos guardá-la com aquilo que ela guarda de nós. Nem todas as nossas folhas brancas são passíveis de serem vistas por terceiros e, sobretudo algumas, por nós. Trazem tanta verdade agarrada, presa que nos destruiria. E é preciso que continuemos a ver o mundo através de quem somos, esquecendo que a maior parte das vezes os nossos olhos, as nossas mãos nos traem, os nossos ouvidos nos enganam e a nossa imaginação… mas o que seria das folhas em branco sem a imaginação, sem esta fome de infinito?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Angelopoulos



A Greek-American filmmaker, known simply as «A», returns to his hometown in northern Greece for a screening of his latest controversial film. His real reason for coming back, however, is to track down three long-missing reels of film by Greece's pioneering Manakia brothers who in the early years of cinema traveled through the Balkans, ignoring national and ethnic strife and recording ordinary people, especially craftsmen, on film. Their images, he believes, hold the key to lost innocence and essential truth, to an understanding of Balkan history Thus he embarks on a search that takes him across the war-torn Balkans, a landscape of spectral figures and broken dreams, right to the heart of darkness: a damaged film archive in Sarajevo where his quest ends. Like a latter-day Ulysses he finds his «Ithaca», the missing, undeveloped film and is at last united with the work of the Manakia brothers... his gaze communes with theirs and another journey begins.

Um grito a dois: Hiroshige

Grito 9

A lésbica

Sempre soube que era homossexual e sentia-se bem com isso. A primeira vez que se apaixonou foi por uma professora que subtilmente lhe retribuíra o afecto e assim permitiu que ela vivesse o seu iniciático amor platónico. Aquele segredo fazia-lhe crescer a alma e era vê-la a devorar tudo quanto fosse teoria e ou ensaios sobre o amor homossexual; nada lhe escapava, nem as teorias mais absurdas das quais se haveria de rir, um dia. Entretanto o corpo começava a exigir e já não bastavam os olhares, os sorrisos, as palavras e então, oportunamente, direccionou a sua atenção para as colegas, algumas colegas, sobretudo as que mais a estimulavam intelectualmente e as que, de uma maneira ou de outra, deixavam vestígios das suas inclinações e preferências sexuais. Ao contrário de outras raparigas homossexuais, nunca lhe foi difícil arranjar uma companheira-namorada-amiga-mais-ou-menos-estável. Amou todo o tipo de mulheres: altas, baixas, frágeis, seguras, determinadas, indecisas, bonitas, feias, contudo, o pilar das relações que estabelecia era sempre ela, na sua calma, na sua bonomia, na sua ambição de ser exactamente o que era, lenta mas inexoravelmente determinava o caminho das relações, geralmente as mais adequadas para os contextos específicos. Amava inteligentemente e era tão jovem, tão pouco sabedora do sofrimento, tão sacrificada pela curiosidade que era impossibilitada de sedimentar o que intuía. Era admiração o sentimento mais habitualmente suscitado pela sua pessoa e ela sabia-o e gostava e alimentava isso com algum capricho, sem que, no entanto, vivesse disso, nem por sombras viveria de tão pouco e tão precário alimento. Corajosa, era a lésbica menos feminista que já existiu e, apesar de tudo, lutou por todos os seus direitos individual e colectivamente. Era serena na sua afirmação e foi assim que se conquistou e venceu.
Um dia sentiu que precisava de amar o corpo de um homem e não deixou de encarar a experiência com o seu espírito científico, medindo as sensações e as emoções e submetendo-as ao crivo das suas considerações. Nunca amou um homem, mas não deixou de sair humanizada da situação compreendendo melhor, aceitando melhor e libertando-se dela para poder amar outras pequenas coisas à sua volta: as crianças, as casas, outros filmes, outras poesias. Tornou-se mais mulher ao experienciar a radicalidade da diferença do homem, macho que ela não queria ser, nem fêmea de um macho que não precisou de ser. Sempre considerou a sua homossexualidade como um passo além, como se esta fosse um estádio superior em relação à heterossexualidade, como se estivesse para lá do corpo e para lá dos outros. Estes sentiam que não era fácil conhecê-la. O que ela era colidia com tudo aquilo para o qual estavam preparados, estimulados. Ela levava-os a sentir que tudo era possível e este era um estado de espírito insustentável.
Conheceu a dor em dois momentos distintos da sua existência e objectivada em perdas incomensuráveis: sob a forma de morte violenta (do pai) e sob a forma de uma ligação afectiva tumultuosa, conflituosa e até atravessada pela loucura, aqui e ali roçando o intolerável. A dor suscitada pela morte do pai foi sendo digerida ao longo do tempo, ora servindo de apanágio para outras dores, ora servindo de apoio para a memória descansar da continuidade da vida. A sua orfandade foi uma das raízes dos seus frutos, embora ela nunca se tivesse sentido uma filha, fosse de quem ou do que fosse. A dor do amor por um par foi bastante intelectualizada: tratava-se de sobreviver. O sofrimento não a aniquilou: não se protegeu, nem fugiu, nem envelheceu e, no entanto, escapa-nos das mãos. Está menos abordável, menos acessível, mais densa e ao mesmo tempo mais simpática, afável. Os anos colam-se-lhe à alma já diversas vezes desmontada, tornada a montar, não montável. Pronta para qualquer coisa que venha.
O seu próximo passo é uma incógnita. Mas a convicção que fica é a de que, vá para onde for, irá bem, deixará bem quem a acompanhar e à sua volta talvez viver seja mais respirável.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Vinterberg




Festen was Director Vinterberg’s debut motion picture and he deserves much credit for developing such a well layered story (apparently inspired by a caller on Danish Talk Radio) and allowing it to gradually unravel itself naturally within the course of the evening’s events. His utilizes the rawness of the dogme style to show us the story in its most harsh unedited detail. He lets the audience eavesdrop on long intimate conversations giving a very real sense of the ripple effect of the opening revelation. Poor lighting and shaky cameras are not even registered by viewers because the story is so compelling.

Um grito a dois: Loose

Um grito na noite

Do lado de fora do rio

A primeira decisão que tomei quando recebi a notícia da tua morte foi a de registar tudo o que se passasse em seguida que estivesse relacionado com ela. Assim, peguei na minha (mini) câmara de filmar e dirigi-me para tua casa. A tua mãe abriu-me a porta com os olhos vermelhos e o rosto marcado pela dor e esta foi a primeira imagem que gravei da tua morte. Ela ficou surpreendida e incomodada, mas abraçou-me e resignou-se àquilo que considerou ser a “minha maneira” de reagir ao sofrimento. Pedi-lhe para ir ao teu quarto, pedido a que acedeu com agrado, certamente reconfortada pela normalidade da ideia de eu poder querer guardar algo teu. Tive tempo mais do que suficiente para filmar a tua cama (tantas vezes nossa), o detalhe da falta de madeira junto à cabeceira, os teus CDs copiados da Internet, o teclado do teu computador cheio de migalhas de bolachas belgas, a tua roupa amontoada na cadeira, os restos dos teus cigarros no cinzeiro e algumas das tuas fotografias, as que estavam expostas. Não abri gavetas nem armários. Apenas me interessava o que era imediatamente visível.
Depois de me ter despedido de alguns familiares teus, manifestamente não filmáveis, entrei no carro e conduzi até à ponte D Luís, que atravessei até ao lado de lá, até Gaia, e aí procurei o teu carro. Ele havia sido ali deixado por ti, com uma nota de despedida em que procuravas tranquilizar os que te eram queridos, inocentando-os de qualquer responsabilidade na tua decisão de não continuar a viver. Justificavas essa escolha com a tua inabilidade para viver. Esse bilhete estava nas mãos da polícia judiciária, por isso, quando cheguei perto do teu carro, limitei-me a filmá-lo por fora, os pneus já quase vazios, a porta do lado esquerdo ligeiramente amolgada, e o pó nos vidros dificultando a filmagem ao interior do carro, embora não totalmente: havia um casaco azul-escuro caído entre os bancos de trás e os da frente e uns óculos de sol esquecidos em cima de um jornal no tablier.
Em seguida, caminhei ao longo da ponte, pelo lado esquerdo, no sentido Sul-Norte, procurando captar com a câmara os teus últimos passos e depois a queda, tal como eu os imaginava. Esta foi filmada inicialmente com a câmara desfocada até atingir a água do rio e se tornar de uma nitidez dourada. Ninguém sabe de onde saltaste, se saltaste ou simplesmente caíste. Mas imagino-te ébrio, desolado com a existência como só tu: quem aguenta um pai alcoólico e alucinado, uma mãe amargurada e um irmão bem sucedido, tudo ao mesmo tempo? Tu não. Imagino-te a beberes até caíres, depois de teres pensado na forma de fazer aquilo que te andava a apetecer fazer há tanto tempo. Imagino-te a pagares uma última rodada aos amigos e a atribuíres um sentido solene aos mais triviais desabafos destas circunstâncias. E consigo ainda ver cada ruga do teu rosto enquanto mudava o tempo e se aproximava a hora.
O portátil toca. O teu irmão pede-me que acompanhe a tua mãe ao instituto de medicina legal, tendo em vista o reconhecimento do teu corpo. Comento com o teu irmão que poderá ser muito duro para a tua mãe. Ele responde “ela faz questão” e desliga o telefone. Sorrio e lembro-me do quanto te pareces com ela. Nessa noite sonho com as imagens que te roubei e de manhã acordo sobressaltada com receio de estar atrasada. Mas nem por isso, apesar de ter chegado ao instituto de medicina legal e já lá estar a tua mãe, o teu irmão e a namorada. Nervosos, tristes. O teu irmão olha para a tua mãe e pede-lhe para não entrar; ela exalta-se e afirma “tenho que ir ver, com os meus próprios olhos”. Eu e ela encaminhamo-nos para a porta lateral do instituto, batemos à porta e aparece um homem muito mal-encarado que nos pergunta o que queremos. Explicamos o motivo da nossa presença, identificamo-nos e eu pego na minha mini câmara e começo a filmar. Filmo o homem que começa por calçar lentamente umas luvas. Em seguida, pergunta a um colega “onde está aquele que foi encontrado na Afurada”? “No quinze”, responde o colega e eu filmo o gavetão número 15 que se situa na parte superior do armário de gavetões, à nossa frente. O homem mal-encarado, cuja boca filmo intensamente, abre o gavetão e surge então o teu corpo, ainda vestido com a roupa do último dia em que foste visto, embora toda esverdeada, e o teu rosto e mãos inchados. A primeira imagem que quis reter de ti foram as tuas mãos pousadas cuidadosamente sobre o peito, depois os olhos fechados e voltei a câmara para a tua mãe. Ela dizia “é ele. O meu filho”. Como se não o soubesse. Como se fosse outra vez notícia. Voltei de novo a câmara para o homem carrancudo que afirmava “está inchado e verde por ter estado muitos dias no rio… e teve sorte… a maré desceu e ele deu à costa… podia ter acontecido como com os de Entre-os-Rios. Nunca mais se viram…” Também acho que tiveste sorte por teres dado à costa. Sempre foste um homem de sorte; até nisto ela é precisa. Todos precisávamos dum cadáver para chorar, fosse de que cor fosse. Agora terás um funeral, belíssimo na sua fatalidade. Ainda gravei o preenchimento de toda a formalidade, na secretaria. Os dados foram recolhidos por uma assistente social muito carinhosa que interpelava a tua mãe já muito distante no seu sofrimento, impenetrável.
Saí com a tua família do instituto perto da hora do almoço. Ninguém conseguia comer e por isso distribuímos tarefas: o teu irmão encarregar-se-ía de avisar o resto da família e amigos, bem como de tratar das questões religiosas; a tua mãe iria escolher a roupa e trazê-la para que te vestissem decentemente para o velório e eu procuraria o teu pai. Fui encontrá-lo no seu estado habitual, completamente alcoolizado, no restaurante do costume, desta vez no centro das atenções por tua causa. Filmei-o sentado de costas para a porta do restaurante, depois aproximei-me lentamente e passei a filmar o rosto do amigo sentado em frente dele, totalmente absorvido pela desgraça do teu pai. Acabou por lhe fazer notar a minha presença. O teu pai rodou a cabeça na minha direcção e encolheu os ombros em sinal de total desinteresse pela minha pessoa ou pelo que ela pudesse significar ali, naquele momento. Cumprimentei-o e pedi-lhe que viesse para casa juntar-se ao resto das pessoas que queriam partilhar aquele momento. Ele soltou uma gargalhada, olhou-me com um desprezo enorme e avisou-me “se me filmas uma vez mais que seja, vais engolir essa merda”. Chamei o empregado “a conta, por favor” e usei mais uma vez o velho truque “conte-me lá aquele episódio da guerra… aquele em que teve que fazer uma transfusão de sangue directa, no meio do mato, para salvar o seu amigo…” Não resistiu, como sempre, e lá começou a relatar a emboscada, os helicópteros que só podiam voltar de manhã, o pé do colega nas mãos do inimigo, o enfermeiro que não controlou os esfíncteres, o pânico e... chegamos a casa. A tua empregada já tinha um café forte pronto e a roupa para depois do banho. A tua mãe informou-nos de que o teu corpo estava já em câmara ardente na igreja da freguesia. Onde tinhas sido baptizado, onde tinhas realizado a primeira comunhão e a solene, onde ela vai todas as semanas pedir por todos, onde o padre te recorda sem mácula. Lá arrastei de novo o teu pai comigo, ainda naquele espírito missionário, em Moçambique, a salvar umas vidas atrás das outras e a perder a dele.
A capela onde depositaram o teu corpo era francamente pequena para tanta gente. Já deviam saber que uma vida ceifada na flor da idade atrai muita gente: a família e os amigos ainda estão todos vivos e ninguém se conforma com uma morte que não seja o corolário de uma doença ou de um acidente. O caixão é lindo, de mogno, forrado a cetim e tu estás de fato e maquilhado, fizeram um bom trabalho, não pareces o mesmo que vi na morgue. Agrada-me que estejas com bom aspecto, torna a tua opção mais credível. À entrada da capela existe uma cómoda onde a tua mãe colocou uma fotografia tua, muito mais novo, ainda sem aquele ar cínico que foste adquirindo com o tempo. E um livro de condolências por estrear. Filmei o livro despido e o Cristo na cruz que compunha o pequeno altar em tua homenagem. Algumas das pessoas que iam chegando beijavam a cruz, como se fosse Páscoa. Também filmei esse gesto. Repetidas vezes. E os teus sapatos! Acreditas que te calçaram uns sapatos como nunca usarias na vida? Pretos e com cordões! Filmei os sapatos de todos os ângulos possíveis tentando encontrar alguma familiaridade…em vão. A maior parte das pessoas concentrou-se fora da capela falando baixinho, conjecturando; a tua mãe sentou-se perto de ti, olhando-te com uma saudade que me fez estremecer. Penso que foi exactamente nesse momento que a ideia começou a tomar forma dentro da minha cabeça. Por uns momentos saí da capela e fui apanhar ar, como se a ideia fosse tão grande que não coubesse dentro de mim, não me deixasse espaço para respirar. Pensei que estava a enlouquecer, e estava, mas ainda não sabia e talvez nunca o viesse a saber. Resolvi voltar a entrar na capela e tentar apanhar de novo aquele olhar da tua mãe sobre ti. Mas quando regressei as pessoas estavam todas a sair da capela. A tua mãe procurou-me, aflita, e sussurrou-me “não se podia com o cheiro, tiveram que fechar o caixão…foram muitos dias, eu disse-lhes que sim, que fechassem”; ela olhava para mim em tom de súplica, precisava de aprovação – eu dei-lha, “fez muito bem”. Eu e ela, de mão dada, de novo dentro da capela, eu cheia da minha ideia respirava com dificuldade, ela pensava que eu estava comovida e apertava-me a mão. Dentro da capela limitei-me a filmar mais isto: a desolação duma mãe sozinha, cabisbaixa, junto do caixão fechado do filho morto. A tua mãe e o teu irmão ficaram toda a noite na capela, sentados perto de ti. O teu pai não aguentou mais do que uma hora e voltou para o restaurante, à noite, bar. Eu fiquei apenas para filmar a tua mãe, mas limitei-me a filmar os ponteiros do relógio enquanto se moviam, depois fui dormir.
O dia do teu funeral nasceu esplendoroso: sol quente e céu azul. O cemitério escolhido é muito bonito com as suas avenidas largas enfeitadas por árvores e as suas campas muito limpas e floridas. Esteticamente, o teu funeral foi o ponto alto do acontecimento que é a tua morte. E eu e a minha mini câmara lá estivemos a registar todos os momentos, apesar dos olhares censuradores que muitos me lançavam. Maioritariamente vestidas de preto, as pessoas percorreram o cemitério em passo lento, amontoadas atrás dos homens que transportavam o teu corpo dentro do caixão, agora selado, contrastando com a cor das flores, das árvores, do dia. A tua campa fica num ponto alto do cemitério, muito bem localizada para quem a visita e para quem nela habita. Chegados a ela, todos se dispuseram à sua volta, num círculo irregular. A cova estava aberta e foi junto dela que pousaram o teu imponente caixão e se prestou uma última homenagem, orientada pelo padre, mais uma vez, que te viu crescer. No momento de descer o caixão à terra, à última morada, ninguém teve o mau gosto de pedir que fosse aberto (todos se lembravam do cheiro nauseabundo) e apenas se ouviu a tua mãe chorar e dizer “Não!” repetidas vezes e se viu o teu pai a ampará-la como nunca o fez. Foi preciso morreres para que ela precisasse de se apoiar nele. Ele, que sempre se apoiou nela, durante toda a vida. O teu irmão não conseguiu evitar que as lágrimas lhe molhassem o rosto. E os teus tios confundidos, os teus primos revoltados, a tua avó mais velha do que nunca, os teus amigos em atitude de espanto compunham um cenário único; previsível, mas único. E a minha câmara apanhou-os enquanto esmagavam as pontas dos cigarros com os pés, enquanto tentavam disfarçar a emoção, enquanto cumpriam obrigações e laços, enquanto ombreavam com a morte de soslaio, enquanto fraquejavam. Foi um funeral rápido, o teu pai precisava de ir beber e não houve muitas conversas de circunstância no fim, não se prestava a isso. Eu fiquei depois de todos partirem. Agora era só eu e tu e os coveiros que se apressavam a tapar o caixão com terra que lançavam para cima dele. Precisava de amadurecer a minha ideia. Estava cansada de ter estado tanto tempo a filmar debaixo daquele calor. Perguntei aos coveiros quando é que a tua campa ficava pronta. “Daqui a uns dias”, responderam.
“Daqui a uns dias” é uma informação vaga que cria muitas ilusões na comunicação, nomeadamente, cria em mim a ideia de que teria uns dias para pôr em prática a minha ideia. Por isso, resolvi avançar no próprio dia do funeral, melhor, na noite do dia do funeral. Muni-me de um tripé, da minha inseparável câmara, duma lanterna, dos meus headphones, duma pá, uma pequena caixa de ferramentas e duas cervejas e conduzi até à parte de trás do cemitério que tem duas entradas secundárias cujo gradeamento é mais fácil de ultrapassar do que o do portão principal. Além disso, a rua destas entradas secundárias é muito mais sossegada, corro um risco menor de ser vista e confundida com um desses góticos excêntricos que adoram cemitérios, mortos e coisas afins. Dirigi-me sem dificuldade para a tua campa, apesar do peso dos objectos que levava comigo. Uma vez lá chegada acendi a lanterna apenas para me orientar, depois apaguei-a para poupar a bateria. Liguei os headphones com música de Britten (excerto de Peter Grimes – cena 1 do segundo acto “Acredita em mim… Deus tenha piedade de mim”) e comecei logo a cavar, tentando desfazer o mais depressa possível o trabalho dos coveiros. Demorei bastante tempo e tive que parar algumas vezes para beber e descansar. Finalmente, estava já a ouvir Bárbara Hendrix cantar uma ária (cantilena) das Bachianas Brasileiras do Villa-Lobos, sinto algo duro e tenho a certeza de que consegui chegar ao teu caixão. Respiro fundo, sorrio e sinto que vou concretizar o meu plano. Quando me deparo com o teu mogno, tiro a chave de fendas do bolso e começo a desaparafusar as tuas fechaduras cromadas. Parecia mais simples do que realmente é. Por fim, abro a tampa e, de novo, acendo a lanterna, preparo o tripé, com a câmara em cima, oriento-a na tua direcção e REC, está a filmar. Filma a renda que te cobre e que afasto com cuidado. Subitamente, sinto aquele cheiro insuportável: tinha-o esquecido. Carrego em PAUSE na câmara. Páro um pouco, volto a beber um gole de cerveja, ponho Callas a cantar “O mio babbino caro” no headphone, respiro fundo e volto ao filme. Ali estás todo inteiro, tal como sempre te conheci. REC de novo. Começo por te acariciar o rosto e as mãos. Reconheceria as tuas mãos entre mil. Têm um recorte tão invulgar, são-me excessivamente familiares. O toque é estranho, mas bom, só o cheiro é que estraga tudo. Tenho que parar mais uma vez. PAUSE. Sinto-me enjoada. Mas tenho que fazer o que tenho que fazer; tenho que fazer o que quero fazer. REC. Deito-me na terra húmida, aproximo o meu rosto do teu e começo a beijar-te a boca fria e inerte. Sabe-me bem. Mexo no teu cabelo, puxo-te o cabelo, murmuro-te coisas indecentes, coisas sem sentido, barbaridades, o que interessa é o tom. A lanterna começa a falhar, apre! Tenho que me despachar. Sento-me ao teu lado e declamo-te o poema do Torga, Lápide e, sem dar a tempo a mim própria de pensar mais, abro-te o fecho das calças, puxo o teu sexo murcho para fora, hesito um momento, engulo em seco e corto-o com uma pequena navalha. Não sangra, não oferece resistência, deixa-se mutilar, é meu. Qual geisha Sada de Oshima. Embrulho-o num saco de plástico, depois noutro e guardo-o no bolso do meu casaco. Volto a beijar-te a boca, desta vez com a língua, tapo-te, fecho-te, aparafuso-te e repito os gestos dos coveiros. Há muito que a câmara deixou de filmar por falta de bateria. O mesmo se passou com a lanterna. O meu trabalho carece de perfeição, estou exausta e com muita vontade de ir embora. Recolho as minhas ferramentas e, sem olhar para trás, ponho-me em fuga. Na minha cabeça martelam as palavras de Torga “Quando eu morrer e tu ficares sozinha, / longe do bafo quente do meu corpo, / tu, a quem eu amei, sei lá por vingança/ de Deus, / nessa hora, / olha serenamente a nossa história inútil / e chora…/ Rega de pura mágoa a flor do “nunca mais”/ (…) e depois morde o chão seivado e semeado / do místico perfume do meu sexo / sepultado…”

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Um grito na vida

Do realismo maravilhoso dos haitianos
Jacques Stéphen Alexis

ALEXIS, Jacques Stéphen. Prolégomènes à un manifeste du réalisme merveilleux des Haïtiens. Dérives. Montréal, n.12,1970. p.245-271.
Comentário: Maximilien Laroche (Universidade Laval)

O grito do dia



Finalmente, consigo gritar pelo Haiti.

Um grito na noite


Descida aos infernos

Descer do céu
No princípio a dor é insuportável, física, corta-nos a respiração, sentimos a cabeça a andar à roda, temos a sensação de morte eminente e achamos que o fim chegou e que não é possível continuar. Estamos em pleno estado de choque e não existem palavras, gestos, expressões ou atitudes que possam traduzir, legendar a situação. Tudo é dor à nossa volta, sem portas, sem ar, sem ranhuras, sem esperança de tréguas. Este estar pode durar muito tempo, depende da resistência ou desistência. Existe de facto a sensação de queda. Alguns não voltam deste sentir. Geralmente, os outros referem-se a eles como “passados”, “doentes”, “não confiáveis”. Alguns deixam de ouvir os sons provenientes do exterior e passam a ouvir os sons do próprio pensamento. Outros deixam que o campo de visão enriqueça e outros ainda sucumbem aos cheiros ou às interpretações bizarras. Não se percepciona a solidão, apenas o tédio da dor. Enquanto esta realidade não for familiar, sofre-se a estranheza das crianças perante desconhecidos ou a dos analfabetos perante as letras. Mas, aos poucos, o hábito sobrepõe-se, embora não afaste a dor. Estamos sós.

Cair no inferno
Atinge-se o cúmulo da dor, aquela que pensávamos nunca suportar, aquela que julgávamos destinados a bandidos e criminosos, aquela do diabo e para o diabo. A dor é toda a existência: nada mais para além dela. Quase nos enamoramos dela, porque depois dela não há nada, mais nada. E, de repente, somos livres porque a dor justifica qualquer atitude: matar o outro, torturar o outro, humilhar o outro, ignorá-lo, atrasá-lo, empurrá-lo. Somos livres: pensamos tudo o que não nos atrevemos a pensar até ao momento, fazemos tudo o que nunca faríamos sem dor: rastejamos, pedimos, ficamos invejosos, mesquinhos, vingativos. E, em plena queda no inferno, alguns atingem o orgasmo.

Descer dentro do inferno
Arrancam-nos os doentes para não comermos, serram-nos as mãos para não escrevermos, nem pintarmos, nem tocarmos, cosem o sexo da mulher e cortam o do homem. Depois… deixam-nos conviver, mas não sabemos como. Quando se apercebem que nos restam as pernas e os braços para nos abraçarmos, serram-nos os braços e amputam-nos as pernas. Não nos deslocamos embora fiquemos perto uns dos outros. Uma distância intransponível, religiosa. E no meio destes cadáveres ainda vivos, no meio do sangue, da dor física e moral, tornam-nos imortais e a morte deixa de ser uma esperança. Exigem-nos que vivamos, como mortos, mas que vivamos, como seres rastejantes, repugnantes, pecadores e em punição constante. Nem um raio de luz: estamos vestidos de trevas.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Um grito a dois: Roberto Ferri

Grito 8

A lição

Depois de ter rasgado todos os papéis que lhe pareciam inúteis, sentiu-se leve e estranhou essa sensação que há tanto tempo não experimentava! Respirou fundo e resolveu sair para passear junto ao mar. Assim fez.
Há cerca de quatro anos abandonara o seu companheiro de mais de uma década para viver com um outro homem por quem se apaixonara terrivelmente. Hoje ela supõe que era doente por ele e, de facto, enquanto essa relação durou ela sentiu-se sempre doente. De resto, ele dizia-lhe que ela estava sempre doente e ela respondia que sim, que estava doente dele, por ele e que devia ser normal esse estado quando alguém se apaixona como ela estava apaixonada por ele.
Ele adorava a paixão que suscitava nela e alimentava-a cuidadosamente porque sabia que ninguém o amaria mais do que aquilo, mais do que ela. Aquela situação era seguramente o pico da sua existência, no que dizia respeito ao amor. Não que ele a amasse muito, mas isso era normal nele. Nunca amara muito, as paixões desvairadas sempre lhe pareceram histerias femininas, coisa de mulheres desocupadas, de filmes. Achava que não era um homem romântico e nunca sentira falta de o ser. Tivera mulheres suficientes para se considerar um homem com sorte e soubera tirar prazer das relações que mantivera ao longo do tempo. Quando a conheceu surpreendeu-se com a fúria dos sentimentos dela, ela amava-o com raiva mas também com devoção, adoração e muita submissão, coisa que o excitara verdadeiramente. Sentiu-se, pela primeira vez, dono de uma mulher que lhe dizia vezes sem conta “faz de mim o que quiseres”. E ele fazia e gostava do que fazia e gostava que ela gostasse de qualquer coisa que ele lhe fizesse, mesmo que isso implicasse dor física ou moral.
O amor dela permitira que ele se conhecesse melhor, bastante melhor. Descobrira a seu respeito, por exemplo, que sentia prazer em fazê-la sofrer. Por isso, propositadamente, passava dias a fio sem atender os seus telefonemas, sem responder aos seus recados nem mensagens e sem aparecer aos encontros marcados. Ela ficava desesperada e, ao fim de alguns dias, amava-o mais do que nunca, aparecia-lhe no local de trabalho sem aviso, fechava-se com ele no gabinete e suplicava-lhe que não a deixasse, que faria qualquer coisa por ele, que não vivia sem ele, que ele nunca encontraria ninguém que o amasse como ela, que… Ele sorria intimamente. Adorava aquele espectáculo. Ela sabia aquele papel como ninguém. Naqueles momentos, desejava-a imenso e fazia amor com ela como sentia que ela gostava. E este era o ponto alto da relação deles: o prazer dela viciara-o.
Mas agora, ela estava a passear junto ao mar, depois de ter rasgado muitos papéis relacionados com o passado e esse despojamento provocava-lhe uma sensação de bem-estar quente. Passear junto ao mar era, por si só, um prazer enorme. A tarde estava a acabar e o tempo piorava a olhos vistos. O céu tinha aquela cor de explosão que antecede as tempestades. As pessoas refugiavam-se nas casas ou nos carros e só meia dúzia se atrevia a andar ali com aquele tempo. E, de repente, começou a chover tanto que imediatamente ficou encharcada até aos ossos. Inicialmente, pensou em correr para se proteger. Mas rapidamente começaram a surgir aquelas dúvidas sem resposta que sempre a deixavam indecisa e paralisada: fugir para onde? Onde se sentiria ela realmente segura? Esse lugar existiria? A água da chuva era uma ameaça maior do que aquela que pairou sobre a sua cabeça durante quatro anos na sua relação com aquele homem? Seria mais grave estar encharcada por fora ou chorar para dentro, apodrecendo de humilhação?
Continuou a andar junto ao mar: este adquiria um comportamento cada vez mais ameaçador. Alguns carros paravam como que indagando se ela precisava de ajuda ou, simplesmente, porque é que ela estava ali. Ela caminhava rapidamente, com fúria, como que lutando com o vento e a chuva, vencendo cada passo e prosseguindo. Não sei em que momento sentiu que a caminhada não teria fim, mas a partir dessa hora indetectável, dissolveu-se no mar.

Um grito na vida: Grosbard



Grosbard directed the 1995 drama Georgia, starring Jennifer Jason Leigh and Mare Winningham. The film earned several Independent Spirit Award nominations, including one for Grosbard, and earned Winningham a 1996 Oscar® nomination for Best Supporting Actress.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Um grito a dois

Grito 7

A verdade encontra-me. Sou aquela que se esconde e furta. Vivo nas esquinas do tempo, nas franjas da vida dos outros, no escuro. E se procuro a luz, o ar do dia, a verdade encontra-me. O que sou encontra-me. E eis-me de novo atrás de uma porta, debaixo da cama, numa rua secundária. Não estou onde quero, estou onde sou, estou o que sou. Querer… queria outra realidade, outro ser, outro crer, ou crer apenas, outro estar, como todos os outros, mais igual, mais igual. Não queria ouvir os sons agudos, nem os graves, nem me comover com eles, nem ser sempre uma ferida sem cura. Mas a verdade encontra-me. Não posso passar a vida a fugir. Não consigo passar a vida a fugir. Não tenho para onde fugir. Sou este negativo do que quis ser. Dentro de mim tenho vida clara, avenidas, gente vestida de cores alegres com palavras simples nos lábios; dentro de mim há uma lisura de alma.
Só há pouco tempo soube que não seria diferente do que sempre fui. Há pouco tempo o meu corpo mudou, mas eu não mudei com ele. Fiquei onde sempre estive, onde sou. Soube que doravante viveria separada do meu corpo que mudara, mas eu não. Esta cisão fracturar-me-ia a alma, mas não a mudaria. Continuaria sombria, continuaria a esconder-se facilmente, a furtar-se, a esquivar-se, a iludir. E esta é a verdade que me encontra: aquilo que sou, que sempre fui e que não será diferente jamais.
Aquilo que esqueço magoa-me mais do que o que não esqueço. Cada coisa que esqueço é a mim que perco. Quero dizer e fazer coisas banais que possa esquecer sem perda. Não quero acontecimentos no que sou, nem antes nem depois, nem registos. Gostaria de me deslocar sem me mexer, sem deixar rasto, perder este lugar onde a verdade me encontra, ser outra verdade.
Por pouco não me desoriento nas palavras. Tenho pena de morrer, não tenho medo. Havia tanto para ser nestas ondas em dias de sol. Corpos por devorar. Mas a verdade chega devagar para me encontrar. Faz comigo um jogo de sedução que me inebria. Deixa-me adivinhá-la, ser encontrada por ela, ser esmagada pelo seu significado, tornar-me no que já sou, reconhecer-me, aceitar-me. Gostar de trevas e caos onde repousarei; nas trevas e no caos. Onde estarão todos? Num tema que apagarei sem pena, sem perda. Só preciso de escuridão e mar. E, claro, ser encontrada por essa verdade que é minha, que sou eu num movimento contínuo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Haynes




Arousing contempt and scorn from the far right and the American Family Association, Todd Haynes' Poison was a groundbreaking film in 1991, and its controversy paved the way for the New Queer Cinema movement. While I'm sure the filmmaker wouldn't want to qualify his work in such a way, since it stands on its own as a brilliant film, it is an important film from a political standpoint. One can quickly see that this would mean nothing were it not successful on an emotional, intellectual and entertainment level, to which it achieves something few art house films can touch and all should aspire to.

Grito 6

Desabafo

Já conhecia o teu irmão antes de te ver pela primeira vez. E ele era louco como o mundo, sim, era. Imprevisível, instável. Não tinha a tua candura nem encanto. Mas a sua loucura era contagiante, arrebatadora, promissora de mundos ímpares e diferentes. Num dia pendia para ti, no outro pendia para ele. Oscilando assim, tinha a ilusão de ter os dois para mim e de não precisar de escolher. Quem não escolhe é escolhido. O teu irmão perdeu-se com um rapaz que parecia ter saído de um filme do Visconti, Morte em Veneza. E eu fiquei contigo para mim sem que tu te apercebesses muito bem disso.

E tudo isto me parece tão distante, agora que tenho medo de escrever sobre nós e medo das letras que me possam sair dos dedos. Medo de perceber que se instalou um fim em nós. Nós, que nem chegamos a ser verdadeiramente um “nós”. Sempre que penso nisto sinto uma vontade incontrolável de chorar, vontade essa que procuro conter. Mas hoje acho que não faço bem em segurar as lágrimas. Elas afogam-me por dentro. Sufocam-me e destroem-me. Tenho medo da realidade que estas palavras conferem, mas não as posso evitar. Algum dia iria transbordar. Sempre temi transformar-me numa mulher piegas, dependente e, afinal, eis-me aqui de olhos inchados, lenço na mão, desolada, sem esperança e, ao mesmo tempo, cansada de desempenhar este papel. Já tentei rir-me de mim própria e cheguei até a consegui-lo. Tentei ser outra pessoa e, durante algum tempo, sai-me bem e senti-me confiante de que era capaz. Mas não. Vem aí a tormenta e eu tenho que passar por ela, não vou conseguir fugir-lhe.

As pessoas à minha volta, aquelas que considero amigas, dizem-me que estou presa por fios, eu sei, eu sei, tentei torná-los cordas grossas, não escorregadias, fortes, mas não consigo. Os fios vão cumprindo a sua função, mas sinto-me frágil, sempre quase a quebrar. Tento voar e eis que os fios se transformam em asas e eu percorro o mundo à espera de aterrar numa praia quente. Mas o voo é instável e estou sempre em permanente vigilância das asas, não vão elas converter-se de novo em fios e fim. Nunca aterro no lugar desejado e volto a ser quem sou, cambaleante, marioneta por uma eternidade. Raras vezes os fios endurecem, tornam-se aço e os meus olhos faíscam e ninguém me arranca do sítio. E eu sou muito eu, ou penso que sou. E assim vou passando pela vida, oscilando entre um eu forte, duro, difícil e um outro eu cujas pernas tremem, vacilam e que tem medo. Tanto medo.

Estou no momento crítico em que transito de um estar decidido e seguro de si para um estar perdido, às cegas e nem a lembrança da minha indecisão entre ti e o teu irmão, nem do carrossel que foi a nossa vida me lembra um padrão. Um padrão de comportamento do que sempre fui e sempre sou e serei. Aceitar-me-ei assim? Uns dias sim, outros não. E os outros? Amar-me-ão e odiar-me-ão. Morrerei feliz e com a certeza de que quero morrer, que mereço morrer para afinal descansar? Ou morrerei insegura, com medo, agarrada à vida? Ou morrerei na passagem de um estar para o outro? Uma coisa é certa: morrerei. Mas, às vezes, penso que morrerei de tanto ter vindo a morrer. Como se algo me empurrasse para a morte apesar de lutar todos os dias, lutar em cada palavra, em cada pessoa. Desiste-se.

Um grito a dois: Dali


domingo, 10 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Wong Kar Wai


Yiu-Fai and Po-Wing arrive in Argentina from Hong Kong and take to the road for a holiday. Something is wrong and their relationship goes adrift. A disillusioned Yiu-Fai starts working at a tango bar to save up for his trip home. When a beaten and bruised Po-Wing reappears, Yiu-Fai is empathetic but is unable to enter a more intimate relationship. After all, Po-Wing is not ready to settle down. Yiu-Fai now works in a Chinese restaurant and meets the youthful Chang from Taiwan. Yiu-Fai's life takes on a new spin, while Po-Wing's life shatters continually in contrast.

Um grito na noite


Quando te escrevo, nestes momentos, é sempre para me despedir. Para te dizer que parto, mais uma vez, convencida do quanto os amantes infelizes precisam de se separar. E sim, fui uma amante infeliz, contente nos encontros e miserável nos desencontros, e depois, de novo miserável, agora nos encontros. E em seguida, ponho-me a pensar que sentido pode ter esta tristeza que vem de nós, e a resposta fica presa na garganta, engasgando, engasgando. Preparo-me para partir sem deixar que o adeus me cegue e retenha. Não te quero deixar palavras que matem. Nem gestos que não me pertencem. Algo se perde na procura de um desfecho. Onde posso ir buscar força? Onde me posso esconder, aninhar, regredir? Onde posso não chorar?
Quando te escrevo, partida ao meio, com os pulmões sangrando, perdendo tudo, entendo que é aqui que tudo recomeça: não que me faltes, não que te queira, não que te tenha; mas que me volte no caminho, tanto que reconheça aquilo que nunca vi. E de te pensar outra vida, distante da minha dor, tenho saudades felizes da nossa vida infeliz. Se te ouço, se te vejo, chegarei um dia à tarde e seremos o brinquedo que enterraste à espera que crescesse - e não cresceu. E continuo espantada que não tenha acontecido. Se esse gesto genuíno, original nada gerou, o que brotaria de nós? Tomara a resposta fosse nada. E a resposta é nada.
Quando te escrevo, ainda te escrevo; e por cada palavra mil perdões mil desculpas. Compreende: já não consigo despir-me, mas continuo descalça, de cabeça caída. Os meus cabelos não se seguram presos na nuca, caiem com o peso do ar nas pontas, caiem sobre os meus ombros e cobrem-me um pouco, escondo-me neles. Já não estou. Não estou. Mas quis estar, quis. Mas não. Não estou. Estranho que esta estranheza me seja tão familiar. O meu corpo inchou para que não me encontrasse. Já nem sofro e até isso é possível. Respiro fundo e desapareces no meu sopro. Eu, que era a tua terra, a tua casa, expulso-te deste reino indo embora.
E quando te escrevo, nego-te a presença, digo-te coisas pretas num fundo branco, sei lá se te desejo alguma coisa de bem ou de mal, sei lá se ainda te desejo, sei lá onde é isso agora. Onde dói o desejo. Tenho a pele seca, os olhos baços, os cabelos sem brilho e o corpo todo fora do lugar. Percebo agora que este vazio que sinto paira sobre mim para me proteger. Para que te possa escrever dizendo que sim, que não, que adeus, que agora isto, e aquilo, e que afinal está bem, adeus, que sofro, não sofro, que sei, não sei. Não me perdoes, que te faço isto e farei mais. Deixa que te deixe. Fica perdido, ou não, com vontade de chorar, ou sem, indignado, conformado e agradecer-te-ei para sempre que não uses as palavras para me responder. Sei lá se para onde vou fico. Baterei palmas no dia da tua morte.

Um grito a dois: Vermeer

sábado, 9 de janeiro de 2010

Um grito a dois: Engonopoulos

Um grito na vida: Téchiné


J'embrasse pas de André Techiné

Pierrot quitte les Pyrenées pour tenter sa chance à Paris, avec l'intention de devenir comédien. Un projet qu'il abandonne, devant les difficultés rencontrées. Repoussant l'amour fané d'une vieille fille et l'amitié trouble d'un journaliste homosexuel, il se livre alors à la prostitution "pour faire du fric". A partir d'un sujet difficile, André Téchiné réalise un film sensible et fort sur un jeune paumé qui connaît la déchéance et la prostitution avant de connaître la rédemption.

Grito 5


Não

Não, não te perdoo. É só para te dizer isto, embora ache que já o sabes. Escolhi já a forma e o local onde te vou matar. Se tivesses desaparecido imediatamente depois do que aconteceu, se tivesses mudado a tua atitude, postura, eu poderia ter acalmado. Mas és quem eras antes do que aconteceu. Em nada te mudou o que aconteceu. Impressiona-me e é-me intolerável a tua forma de estar nesta vida. Não te vou fazer sofrer. Não é que não o mereças; eu é que já não tenho paciência para este tema que tu és. Por isso quero matar-te rapidamente e deixar de pensar no assunto que tu és. Não te quero ter por recordação, nem lembrança, nem como parte (importante ou não) da minha vida, quero apagar-te dentro de mim, reduzir-te a cinzas. Pronto, já te dei uma pista. Cinzas… Lume…É verdade. Tenciono disparar sobre ti com uma pistola que o teu primo me vendeu. Vou tentar disparar o mais acertadamente possível para os órgãos vitais, para que morras depressa: coração, cabeça, fígado. Se mesmo assim não sucumbires, gastarei todas as balas até não te mexeres e serei rápida. Em seguida, regar-te-ei com gasolina e pegar-te-ei fogo acendendo um fósforo. Esperarei que ardas bastante, o suficiente para ficares irreconhecível. E não tentes fugir-me agora que tomei esta decisão, pois ela é irrevogável e procurar-te-ei no fim do mundo para a levar a cabo. Sabes como consigo ser obstinada. E nem tentes demover-me pois isso só irá engrandecer a minha vontade de o fazer. Pedires-me seja o que for diminuir-te-á e irritar-me-á de tal forma que posso até ser tentada a antecipar o teu assassinato. Além disso, não estou permeável a nenhum tipo de argumentação que se proponha influenciar-me no sentido de abandonar os meus propósitos. Quero o pior para ti, tudo o que é mau, negro, ordinário, irreparável, imperdoável. Arrasto-me nisso contigo? Não. Há neste assunto uma enorme superioridade moral da minha parte. Não me contaminarás. Não me transformarei em ti. Não me arrependerei e serei feliz depois da tua morte. Estamos em lugares, na vida, incomensuráveis. O nosso infeliz encontro foi um equívoco que determinou que as nossas vidas se interceptassem num ponto explosivo, mas falso, sem suporte, sem verdade alguma que o legitimasse. Infelizmente, nestes momentos, alguém tem que morrer e alguém tem que sobreviver para contar a história e o ensinamento que dela resulta.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um grito na vida: Lars von Trier


The Kingdom (Danish title: Riget) is an eight-episode Danish television mini-series, created by Lars von Trier in 1994, and co-directed by Lars von Trier and Morten Arnfred. It has been edited together into a five-hour movie for distribution in the United Kingdom and United States. It is currently available on DVD in the United States from Koch-Lorber Films and on Madman Entertainment's Directors Suite label in Australia/NZ.

The series is set in the neurosurgical ward of Copenhagen's Rigshospitalet, the city and country's main hospital, nicknamed "Riget". "Riget" means "the realm" or "the kingdom" and leads one to think of "dødsriget", the realm of the dead. The show follows a number of characters, both staff and patients, as they encounter bizarre phenomena, both human and supernatural. The show is notable for its wry humor, its muted sepia colour scheme, a sort of "Dogme"-lite shooting style with added jump cuts, and the appearance of a chorus of dishwashers with Down Syndrome who discuss in intimate detail the strange occurrences in the hospital (without ever being involved in the story themselves).

Grito na noite


Vítima

“E é tudo. Foram as últimas palavras. Aquelas que remataram os acontecimentos daquele dia de sol, há muito tempo. Estávamos os dois em casa. Havia uma tensão terrível no ar. Eu existia e isso, naquele dia, irritava-o insuportavelmente. Começou por me apertar o pescoço, várias vezes. Parava apenas por segundos com o único propósito de prolongar a minha agonia. Depois principiaram os murros na cabeça, de forma aleatória, onde calhava, na nuca, nos olhos, nos ouvidos, na boca, na testa. Já quase inconsciente, lembro-me de ter caído no chão; aliás, do que me lembro mesmo é de estar no chão e de chegar a vez dos pontapés e de ter pensado “desta vez não vou resistir”. Pelas marcas posteriormente observadas, os pontapés atingiram quase o corpo todo: as costas, as pernas, a cabeça, o estômago, o sexo, as mãos. E lembro-me do sangue à minha volta. Ele era já muitos. Era todos os outros que, durante a minha vida, me tinham agredido, embora nenhum deles com tanta frequência e violência. Geralmente, cada um tem um padrão de agressão: uns preferem os murros, outros os pontapés, outros as estaladas, outros usam utensílios como cintos, paus, jarras, cinzeiros e outros apertam, beliscam, sufocam. Enquanto o fazem têm a sensação de poder que não conseguem obter de outra forma. Alguns têm prazer nisso, outros sofrem com isso mas não conseguem deixar de o fazer. São ultrapassados pela necessidade de agredir. Fui muitas vezes vítima e, no entanto, nunca interiorizei esse estatuto. Eu sabia quem eles eram, do que eram capazes ou no que se podiam tornar. Não estava enganada, apenas desprotegida nessa minha consciência do perigo. O conhecimento que temos das coisas nem sempre nos abriga nos momentos mais difíceis. Por outro lado, sempre acreditei na palavra, no diálogo, na verbalização do mal-estar que pode levar alguém a agredir um outro significativo. Acreditava que o amor impedia as pessoas de atitudes conotadas com o seu contrário, como o ódio, a raiva, o desamor. De cada vez que isto acontecia pensava que era a última e arranjava maneira de me convencer que tinha sido única. Nunca deixei um homem por ele me ter batido ou espancado. Achava que não era razão suficiente, ou que não era uma verdadeira razão para o fazer. Os ferimentos que me eram infligidos não eram fruto da razão. Cheguei a convencer-me da minha responsabilidade na violência que suscitava nos meus pares, ou na minha escolha de pares violentos. Sei que não gostava de ser batida como um saco de boxe e que sentia medo quando me apercebia que esses momentos se aproximavam e tentava fugir e que havia sempre uma teia que me invalidava a fuga. Sabia que ninguém me poderia valer, ninguém me quereria valer, ninguém chegaria para acabar com aquilo. Só o cansaço do agressor, a falta de forças para continuar e o atenuar da raiva punham fim à situação. Nem sempre precisava de ir ao hospital. Às vezes bastava ficar na cama sem me mexer durante muitos dias e as dores iam desaparecendo, excepto se entretanto voltasse a ser alvo de violência física, o que era raro. Os agressores preferem as vítimas sãs. Sentem menos culpa.
Quando tinha de ir ao hospital era um inferno. Os olhares dos outros e a pena. As perguntas dos médicos e dos agentes da autoridade. Os exames. Os tratamentos. Às vezes os internamentos por causa das hemorragias internas e dos traumatismos cranianos. Os enfermeiros curiosos. Era o pior. Nessas alturas não queria que olhassem para mim, que me vissem, que pensassem sobre mim, que extrapolassem. Queria ser invisível e não conseguia. As feridas falavam por mim, chamavam a atenção, e eu morria tanto por dentro delas, de vergonha e culpa por elas serem minhas, serem eu. Até que o conheci e este último não me deixava ir ao hospital, o que muito lhe agradecia. Ele era brutal: a sua violência era reconhecida e temida por todos aqueles que o conheciam. E, até eu, quando nos encontrámos, tive a noção de que era o fim de uma linha, de um caminho. Durante muito tempo não me tocou embora discutíssemos com alguma regularidade. Um dia, saltou-lhe a tampa e o que lá de dentro saiu era negro, pesado, denso e eu só queria entender aquele estar. Não o entenderia. A pancadaria tornou-se gratuita, bastava não haver futebol na televisão. E um dia, de sol, como já disse, acabaram-se as palavras, os olhares, a esperança em dias e noites melhores, e de dentro dele veio a morte. Penso que ele se apercebeu que eu morreria nessa noite e mesmo assim não parou. Pensou nele, na sua negritude, na sua raiva contra tudo e todos, no seu ódio à existência, e eu fui a vítima perfeita. Calada, enrolada em mim num canto da sala tentando proteger-me, frágil, fácil de agredir, disponível para morrer. Quando a polícia chegou eu estava cadáver há algumas horas e estava só. Vi-me ser levada para fora de uma casa que não identifiquei e adormeci para sempre, num sono sem sonhos”.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Grito na noite


O homem invisível

No momento em que sai do centro de emprego da sua área de residência atira para o chão o papel que lhe tinha sido entregue há apenas uns minutos. Não compreende muito bem por que razão o faz. O sentimento de inutilidade que o acompanha desde que ouviu “lamento, mas a empresa está a passar por grandes dificuldades e, numa lógica de redução de custos, teremos de prescindir dos seus serviços, insubstituíveis é certo, mas prescindíveis…” está certamente envolvido neste acto involuntário que consistiu em livrar-se das informações escritas que tinha recebido nesse antro de desencorajamento institucionalizado que é o centro de emprego.
Quando foi despedido pensou positivamente: “os momentos de crise são momentos de crescimento interior; isto está a acontecer para que eu seja obrigado a mudar a minha vida; vou aprender a dar valor a outros aspectos da existência; na verdade este emprego nunca foi aquilo que esperava: sempre estive além do que me exigiam; amanhã recomeço: vou falar com amigos que me podem ajudar e que sempre me estimaram e apreciaram as minhas qualidades produtivas; vou responder a anúncios com cartas personalizadíssimas e um curriculum vitae irrepreensível; vou estudar as possibilidades de criar o meu próprio posto de trabalho e, quem sabe, até uma empresa...”
Mas seis meses volvidos, a indemnização que a empresa não pagou, o subsídio de desemprego que tarda, várias prestações do carro, da casa e do cartão de crédito em atraso, o olhar de desprezo da mulher, que sai de manhã a correr com os filhos, a sua figura em pijama o dia todo, o afastamento dos amigos, as respostas a anúncios sem retorno e o optimismo esmorece. Instala-se, primeiro, a doença do não, a depressão: a vontade de não sair da cama, de não comer, não tomar banho, não se vestir, não estar com ninguém, não se esforçar, não fazer, não ser, não viver. Depois a família impõe o diagnóstico e a cura e, então, instala-se, em segundo lugar, e de forma perigosamente insidiosa e irreversível, a apatia, a doença do nada: nada sentir; a anestesia provocada por fármacos prescritos na sequência do sofrimento; nada esperar; a desistência intelectual desfasada da desistência física ainda tão distante; nada a concretizar; nenhuma palavra, nenhum telefonema, nenhuma pessoa surgirão no horizonte.
À sua volta as pessoas preocupam-se: a mulher preocupa-se com as contas e com os filhos, como será daqui em diante; a família alargada preocupa-se com a possibilidade de ter que ajudar sabe-se lá como; os amigos preocupam-se com o que possa acontecer a eles próprios, isto acontece a qualquer um, ninguém está livre; uma ou outra pessoa preocupa-se genuinamente com aquilo em que ele se possa tornar. Algumas destas pessoas encontram-se ocasionalmente e trocam impressões sobre o assunto e há qualquer coisa de saudade neste facto: recordam o que ele foi e o que era e lamentam o que agora é e o que o motivou. Carpidas as dores, enumeram soluções e estas vão desde o continuar a lutar, o emigrar, o ter uma ideia, até ao internamento, à reforma antecipada, à incapacidade temporária. Abrem-se perspectivas e fecham-se portas e oportunidades.
Pode dizer-se que ele está de certa forma inacessível. Quando os outros conseguem chegar perto dele, ele acolhe-os com um sorriso forçado e palavras ensaiadas. Parece ouvi-los e chega a afirmar que vai reflectir sobre tudo o que lhe dizem e, no entanto, esquece-os rapidamente quando partem e só não esquece o que lhe dizem porque nem o chegou a ouvir. Os outros têm a estranha sensação de distanciamento e ausência na sua presença. Quando saem de ao pé dele não sentem o altruísmo que se segue aos actos caridosos e generosos. Não sabem o que pensar ou sentir, ficam confusos. Não encontraram um homem desesperado, nem desfeito, nem feito vítima ou desgraçado. Não se deparam com um desempregado à procura dum emprego, cujas energias e atenções estão focalizadas nesse aspecto. Vislumbram alguém que se parece vagamente com outro alguém que em tempos conheceram; alguém que deixou de estar ali para eles e isso desarma-os.
A vida à sua volta desenrola-se sem que ele interfira, sem que ele faça diferença. Perdeu o poder e a único modo que encontrou de sobreviver consistiu em se tornar invisível. Ninguém tem que se incomodar com a sua presença porque ninguém o vê. Sabem que ele não morreu, não desapareceu pois não tem meios para isso, mas não têm que sentir o constrangimento de o ver sem nada para lhe dizer ou sem nada para partilhar.
Na sua invisibilidade o homem recuperou alguma liberdade e autonomia, sobretudo quando se tornou invisível para si mesmo.

Um grito na vida: Greenaway



The Pillow Book is a 1996 film by United Kingdom director Peter Greenaway, which stars Vivian Wu as Nagiko, a Japanese model in search of pleasure and new cultural experience from various lovers. The film is a rich and artistic melding of dark modern drama with idealized Chinese and Japanese cultural themes and settings, and centers around body painting (several scenes of which include full-frontal nudity).

It co-stars Ewan McGregor as Jerome, an English translator who becomes Nagiko's favourite lover. Greenaway also wrote the screenplay, in addition to directing. The film was screened in the Un Certain Regard section at the 1996 Cannes Film Festival.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Grito 4


Em memória

Pensava eu que já tinha ouvido tudo, quando me entra pelo consultório dentro uma ex-paciente que há uns anos tinha acompanhado e que presumia estar bem, dada a ausência de notícias e, sobretudo, o desenrolar e desfecho do processo terapêutico. Ela parecia-me bem. Um sorriso rasgado de orelha a orelha. Elegante, como sempre, e com muito bom aspecto. Cheguei a pensar que, eventualmente, me tivesse procurado para me dar uma boa notícia clássica, do género, vou ser mãe, vou viajar durante um ano, vou voltar a estudar, etc. Sentou-se à minha frente com o seu à-vontade habitual, instalou-se e encarou-me. Havia algo de solene na sua atitude e, de repente, o ar tornou-se pesado. Encarei-a e no fundo dos seus olhos verdes, lindíssimos, vi uma tristeza calma, resignada, infinita. Esperei que falasse, mas não falou. Em vez disso, começou a desapertar os botões da frente de uma blusa branca até ficar em roupa interior. Seguidamente, desapertou o soutien e eis que na beleza do seu tronco existia uma assimetria, das mais perfeitas que alguma vez vira: em vez do seio esquerdo existia uma cicatriz horizontal que, de tão bem feita, poderia ascender ao estatuto de obra de arte. Ela inquiriu-me: tive sorte, não tive? Muitas mulheres ficam com cicatrizes horríveis e perdem o orgulho e a vaidade no seu corpo. Eu continuo a achar-me elegante e sensual. Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e continuei à espera que me dissesse o motivo que a trouxera até mim. Enquanto abotoava a blusa, disse-me com a máxima simplicidade possível: quero que me ajude a morrer. E eu compreendi, finalmente. Não: não vinha fazer o luto do seio ou do corpo mutilado, amputado, da sensualidade agredida, dos momentos difíceis da notícia da doença, da invasão da doença, dos tratamentos, das alterações produzidas na sua vida, do medo, da esperança, da morte. Por tudo isso, já ela tinha passado sozinha, provavelmente apoiada por todos os técnicos de saúde necessários nestas situações. Por isso, estava informada. Sabia. Não era pessoa para se deixar enganar. Conhecia a sua situação real. Perguntei-lhe se tinha abandonado os tratamentos. Respondeu-me que não, que não se queria matar porque não queria morrer, mas que sabia que ia morrer e ela não queria morrer desesperada, agarrada à vida, sem dignidade e sem resolver problemas práticos que poderiam atrapalhar a vida dos que cá ficassem. Queria morrer tranquila, sossegada, queria morrer como um mestre, um sábio, com palavras doces para consolar os outros, com sorrisos para lhes alegrar os dias e com o melhor aspecto possível para que se lembrassem sempre dela assim. Por esta altura estava já a tomar morfina para as dores e tinha consciência que a morfina poderia abreviar o seu tempo de vida. Não quero ter dores, disse-me, ou apenas o mínimo possível. Promete-me isso? Prometo-lhe, pensei para dentro. Prometo-lhe morrer consigo porque é assim que quero morrer, com essa força, quase alegria. Prometo-lhe que tudo vai acontecer como deseja. Prometo-lhe que a serenidade da sua morte precoce justificará a sua curta vida e será um ensinamento. Estava derreada perante esta mulher, muito mais nova do que eu, muito mais mulher do que eu, muito mais saudável do que eu, muito mais inteligente do que eu, a pedir-me ajuda, a mim, que da morte só sabia a dos outros. Nada mais. Mas que podia eu prometer, excepto estar ali para a ouvir e aceitar incondicionalmente, sem pena, até ao dia em que ela não conseguisse mais arrastar-se até ao consultório? Perguntou-me se poderia ir vê-la a casa, quando ela não pudesse mais. Disse-lhe que sim, na condição do meu estatuto não mudar nesse contexto, apenas o espaço mudaria. Compreendeu que me recusava a ser a amiga para chorar no meu ombro. Isso não lhe iria faltar. Eu acompanharia as suas emoções, pensamentos, atitudes e decisões até ao fim e, estava decidida a deixá-la fraquejar, embora ela pensasse que não. Ela pensou que eu me asseguraria do cumprimento, da sua parte, de todas as opções tomadas comigo, ainda relativamente autónoma, consciente e com poder decisório. Deixei-a acreditar nisso porque senti que era nisso que ela precisava de acreditar. Não era uma mulher de fé, não tinha muito mais em que acreditar.
Embora tivesse morrido bastante mais cedo que ela própria esperava, teve tempo de resolver tudo o que desejava, de ver quase todos os que suportaram vê-la uma última vez, não sofreu muito com dores e sentia-se que estava calma. Ninguém lhe mentiu ou lhe prometeu o impossível e essa verdade foi-lhe muito tranquilizadora. Nos últimos dias substituiu a palavra morte por viagem e eu perdoei-lhe esta condescendência para consigo própria. Morreu rodeada pelas pessoas que mais amava: o marido, os pais e a irmã adoptiva. No último dia que a vi, toquei-lhe pela primeira vez: apertei-lhe a mão com toda a minha força. E ela compreendeu.

Um grito a dois: Hopper

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Grito 3


"Morri primeiro que ele e sinto-me culpada por isso. E por não ter compreendido que ele estava a morrer. Por não me ter despedido. Sinto-me culpada por ele ter sofrido tanto e eu não ter podido fazer nada. Sinto-me culpada por ter querido que ele continuasse a viver, quando ele próprio já só desejava morrer. Sinto-me culpada por ter pensado que ele era forte e optimista o suficiente para não morrer jamais. Por não o ter apoiado no morrer. Culpada porque estava lá não estando. Sinto-e culpada para sempre", disseram-me hoje. Muitas células em mim entristeceram.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Um grito a dois: Chirico

Grito na noite

Felicidade

Nunca soube se FELICIDADE era apenas o seu nome de guerra ou também o de baptismo, se baptismo tinha havido.
Sei apenas que, de dia, Felicidade era a mais pacata e solitária das habitantes do bairro. Vestia a sua bata gasta com botões à frente e andava para cima e para baixo a fazer as suas coisas, digamos, as suas compras, aquelas que o seu parco rendimento permitia. Conversava afavelmente com as vizinhas a quem se lamentava da vida e corria os cafés da zona pedindo que dessem comida ao filho; comida, sim, ela pagaria no fim do mês; dinheiro, não. Todos conheciam Felicidade e o filho, nado e criado no bairro, toxicodependente há anos e, agora, mais recentemente, infectado pelo vírus da sida. Tinha estado internado mas acabara de sair do hospital e voltara a comer nos cafés do bairro.
Sei ainda que, de noite, Felicidade se transformava. Puxava para cima os poucos cabelos que lhe restavam e a arte do penteado era tal que parecia ter uma farta cabeleira, ninguém diria. Vestia uma saia curta muito justa, geralmente escura, umas meias pretas rendadas e uma blusa garrida. Calçava um par de sapatos com tacão alto e estava pronta para trabalhar. Habitualmente, os homens procuravam-na na parte de trás da Igreja e iam com ela para a pensão de sempre. Tinha clientes de há muitos anos, que tinham envelhecido com ela e por isso a continuavam a procurar. De vez em quando aparecia um cliente novo, mas cada vez era mais raro.
Felicidade vivia com um homem muito mais novo que embrulhava jornais num diário importante da cidade. Este homem amava Felicidade e o dinheiro que ela ganhava, mas suportava mal a vida dela e, talvez por isso, batia-lhe ferozmente. “Ele trata-me muito mal, mas eu gosto dele, ele é o meu homem”, dizia ela a quem lhe fazia o reparo das marcas. Muitas vezes Felicidade ia trabalhar tão pisada que qualquer toque era uma chicotada, mas não podia deixar de o fazer e, era verdade, não queria deixar de o fazer. Gostava da sua profissão.
Felicidade tinha vivido toda a sua vida naquele bairro e começara a prostitui-se aos treze anos quando percebeu que era a única forma de ser útil contribuindo com o dinheiro que ganhava para o sustento da casa, se casa se pode chamar a um aglomerado familiar que apenas partilha a miséria. Teve um único filho que não amou suficientemente. Contudo, nunca lhe negou ajuda, nem nos momentos mais improváveis, nem quando nada tinha para lhe dar, nem quando “dar” era sinónimo de outra coisa qualquer. E, nessas alturas, as vizinhas ouviam-lhe: “Oh, filho! Não tenho…” E o porta-moedas a abrir-se uma vez e outra e havia sempre uma moeda para ele.
Era frequente encontrar Felicidade a chorar à saída de um dos cafés onde acabara de pagar a conta da comida do filho e ficara sem dinheiro. Sabia que exploravam a situação, mas não tinha forma de a controlar. E era vulgar encontrar Felicidade a rir, pendurada no braço do seu homem, gaiteira, encaminhando-se para um passeio pelas redondezas.
Felicidade trabalhou até à véspera da sua morte. Nessa noite sentiu-se mais cansada do que o habitual e ficou contente quando chegou a hora de ir para casa enroscar-se no seu homem. Aí chegada deitou-se, beijou a fotografia do filho pousada ao lado da cama, abraçou o companheiro que dormia no torpor do álcool, aconchegou os lençóis e sentiu-se feliz. Não voltou a acordar. Morreu aos sessenta anos.

Grito do dia


Morreu Lhasa de Sela. O mundo ficou mais triste.

Grito 2

E depois?

Foi a pior pergunta que me fizeram.

Explicou-se a doença. E depois? Perguntaram.

Explicou-se o tratamento. E depois? Perguntaram.

Explicou-se o limite. E depois? Perguntaram.

Explicou-se o fim. E depois? Perguntaram.

Anunciou-se a morte. E depois? Perguntaram.

E depois? E depois? E depois? E depois?

Não tenho um depois para dar a ninguém.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Um grito a dois: Magritte


Grito 1

Comovo-me

quando ouço algum paciente dizer que tem uma vida boa.

Mas,

quando ouço um paciente dizer que

apesar da doença genética que matou o pai, a avó, alguns tios e que o matará a ele, ele não quer morrer porque tem uma vida boa.

Ou

quando ouço um paciente dizer que

apesar de ganhar o ordenado mínimo e não ter dinheiro a partir do dia 15 até receber, apesar de viver em casa de familiares, apesar de nunca ter ido a Lisboa, tem uma vida boa.

Pergunto-me se não estarei sentada no lado errado da secretária.